O PINHAL DE LEIRIA
- InfoBlog de JD
- 29 de jan. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de fev. de 2022

Um artigo original de 'Repensando a Idade Média',
MITOS E LENDAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL: O PINHAL DE LEIRIA
Como sabem, um dos objectivos desta página sempre foi esclarecer mitos e lendas comuns quando se fala da Idade Média, quer portuguesa, quer geral. E hoje voltamos a ele, com um caso paradigmático na cultura portuguesa: o Pinhal de Leiria. Com um papel consagrado na cultura portuguesa, como a tal atesta facilmente o poema dedicado por Fernando Pessoa a D. Dinis (r. 1279-1325) em "A Mensagem", a história colou-se à imagem do sexto rei de Portugal, ajudado certamente pela sua brilhante trova "Ai flores, ai flores do verde pino" e a reputação dúbia de "O Lavrador". Daí parte da comoção com o desaparecimento de cerca de 80% desta floresta no calamitoso incêndio em 2018. Mas será a reputação de D. Dinis imerecida – ou, pior até, totalmente falsa?
Recuemos algumas centenas de anos. Os pinheiros só se tornaram dominantes na paisagem florestal portuguesa a partir do século XIX, embora já viessem a ganhar terreno desde o século XIII. Contudo, se as florestas primitivas portuguesas não eram dominadas por coníferas, estas não eram completamente desconhecidas no território português: desde tempos imemoriais, crescia uma espécie de pinheiro geresiano em zonas montanhosas como a Serra da Estrela. De igual forma, vingavam também pinheiros-mansos no litoral silicioso da Estremadura, em zonas como as costas arenosas dos actuais distritos de Leiria ou Aveiro, que as árvores de folha caduca dificilmente colonizariam. É este o caso do nosso Pinhal: possui origens pré-históricas, que alastrou pelo território ao longo das eras e com muita acção humana. Assim, é bem possível que a sua população fosse originalmente composta maioritariamente por pinheiros-mansos e tenha lentamente mudado ao longo do último milénio para uma maioritariamente de pinheiros-bravos.

Então, de onde surgiu a história da plantação por D. Dinis? Nenhuma fonte das chancelarias do reinado menciona tal plantação nessa área. Também o conde D. Pedro de Barcelos, filho bastardo do rei português, ignorou completamente a questão na sua obra, tal como fariam mais tarde o autor da "Crónica de Portugal de 1419" (provavelmente Fernão Lopes) ou Rui de Pina. Como esclareceu o biógrafo de D. Dinis, José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a primeira menção do plantador só aparece em 1594, no "Diálogos de Vária História" de Pedro Mariz, que constitui a primeira fonte a partir da qual toda a desinformação provém.


Mesmo assim, esta lenda tem algumas bases históricas. Em primeiro lugar, sabemos que D. Dinis promoveu o ordenamento do território (!) da região, ao drenar pântanos, arrotear pauis, fixar dunas e promover o povoamento da zona ao fundar povoações como Parede ou Monte Real. Há autores como Saul António Gomes, que também admitem alguma replantação de árvores num pinhal pré-existente desde tempos imemoriais. Esta possibilidade, embora pudesse explicar a origem da lenda, carece de uma base documental segura. A história da plantação por D. Dinis não passa, portanto, de uma lenda sem provas, enquanto a atribuição “rival” ao pai, Afonso III, é uma completa fantasia (cuja origem gostaria de saber). Mas mais importante do que isso, o “decantado mito” (para citar Sotto Mayor Pizarro) do Pinhal de Leiria acaba por reflectir algo bem mais concreto: a reflorestação do território com pinheiros em finais da Idade Média, por iniciativa de nobres e prelados.

Devido ao crescimento demográfico da Plena Idade Média (séculos XI-XIII) e ao uso extensivo da madeira em todos os domínios da vida quotidiana, das casas e barcos aos instrumentos de cozinha ou como lenha, e tal como em outros reinos europeus como Inglaterra, houve uma enorme desflorestação do território, que já no século XIII apresentava penúria de florestas em áreas como o Entre Douro-e-Minho (!). Ainda que minorada pelas crises tardo-medievais, que possibilitaram alguma recuperação da cobertura florestal, a degradação ecológica era visível, por essa nova expansão ter acontecido principalmente devido ao mato e não aos primitivos bosques. Só isto explica porque é que na época dos Descobrimentos o reino tinha de importar madeira ou até tabuados e mastros de locais como a Flandres ou a Escandinávia, de modo a compensar estas carências. Outro modo de o fazer era precisamente plantando árvores, e a árvore utilizada era o pinheiro-bravo por uma série de razões: crescia rapidamente, tudo servia de lenha, a madeira era boa, permitia o crescimento de boa cama para o gado, também em expansão em finais da Idade Média, e ajudava ainda a afastar os javalis (algo muito popular para os lavradores, certamente). Havia, porém, um senão: o empobrecimento dos solos por “podzolização”, o que no fundo acaba por ser uma espécie de lixiviação da terra onde os pinheiros se inserem, com a consequente pobreza do solo em húmus, perda de biodiversidade e erosão acelerada dos terrenos.

Por isso, à custa de madeira boa e barata, Portugal comprometia ainda mais os ecossistemas existentes no seu território e a sua rentabilidade agrícola, o que se reflecte em queixas de Capítulos de Cortes do século XV por parte dos concelhos a dizer que os solos já tinham produzido muito mais do que o faziam na época. Para tal situação, contribuiria muito provavelmente a degradação dos solos por acção das novas árvores. Ou seja, bem longe da imagem que se ouviu no ano passado de um rei plantador de árvores e até “ecologista”, que ainda aparece de vez em quando nas redes sociais, a lenda de D. Dinis e do Pinhal de Leiria deve ser, a meu ver, interpretada exactamente como símbolo da degradação ecológica e do histórico mau ordenamento geral do território em Portugal. E, sinceramente, não consigo parar de pensar no modo como hoje se repete a asneira ainda mais intensamente, tanto com pinheiros como eucaliptos. Não sei se a História se está fadada a repetir, até por causa do contexto muito diferente de uma sociedade (pós-)industrial, mas claramente Portugal nunca aprendeu com os erros na área florestal…

Bibliografia:
Gomes, Saul António (2002). "Introdução à História do Castelo de Leiria". Câmara Municipal de Leiria, 2ª edição (revista e ampliada), pág. 20.
Marques, A. H. de Oliveira (1986). "Nova História de Portugal", vol. IV, "Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV". Editorial Presença, págs. 101-103.
Marreiros, Rosa (1996). "Poder Sobre a Terra – Suporte Socioeconómico dos Grupos Sociais". In Marques, A. H. de Oliveira (Coord.), "Nova História de Portugal", vol. III, "Portugal em Definição de Fronteiras". Editorial Estampa, pág. 192.
Pizarro, José Augusto de Sotto Mayor (2007). "D. Dinis. Um Génio da Política". Temas & Debates, 2ª edição, págs. 220-221, 263 e 333.
Sousa, Armindo de (1997). "Condicionamentos Básicos". In Mattoso, José (Coord.), "História de Portugal", vol. II, "A Monarquia Feudal, 1096-1480". Editorial Estampa, págs. 268-275. José Luís Pinto Fernandes
Um filme original de Miguel Costa:
Em Outubro de 2017, devido aos violentos incêndios que assolaram o país, a floresta ardeu na sua quase totalidade.
Este vídeo procura de alguma forma não deixar caír em esquecimento o que o Pinhal era antes destes grandes incêncios, fazendo a comparação de alguns locais entre o "antes" e o "depois".
Imagem e Edição: Miguel Costa Música: Max Surla - Media Right Productions - "Thinking Back"
Imagens aéreas captadas com Yuneec Typhoon H Pro (drone gentilmente cedido por Carlos Portugal Fotografia)
Link do Video: https://vimeo.com/240996018
Opmerkingen