O CASTELO DE BELMONTE: DAS ORIGENS À DESCARACTERIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA
- InfoBlog de JD
- 8 de nov. de 2022
- 7 min de leitura

Um artigo original de 'Repensando a Idade Média',
Sabendo o apreço dos nossos leitores por castelos medievais, e com algumas revisões parcialmente feitas com base nos comentários do Dr. Joaquim Silva Candeias a uma versão anterior do texto, voltamos a apresentar um caso muito interessante e atípico no contexto dos castelos medievais portugueses e das suas transformações: o Castelo de Belmonte.

O actual concelho de Belmonte, na região da Cova da Beira, era inicialmente centrado na antiga “villa” romana de Centum Cellas, que evoluiu para uma aldeia na Idade Média com centro na antiga “pars urbana” – convertida em torre senhorial, provavelmente correspondente à torre na freguesia do Colmeal da Torre, já desmilitarizada e convertida em pardieiro quando um quinhão régio dos direitos sobre a torre foi aforada em 1291. Essa povoação acabou integrada no termo do concelho da Covilhã em 1186, mas foi doada por Sancho I ao bispo de Coimbra, a nosso ver algures entre Março de 1188 – notamos como apenas os Infantes Afonso e Pedro Sanches são referenciados como doadores do couto junto com os pais – e Fevereiro de 1194, quando o bispo concedeu foral com base nos costumes da Covilhã. Poucos anos depois, porém, possivelmente na sequência da ofensiva leonesa em 1198-1199 e das necessidades defensivas nesta região de fronteira, a população desse senhorio mudou-se para Belmonte, situada num local mais defensável, em cima de um maciço granítico, e teve um novo foral outorgado directamente por Sancho I em 1199.



Desde esta altura em diante, até finais do século XIV, Belmonte converteu-se no centro de um concelho cujo senhor era o bispo, estando ainda dependente do concelho da Covilhã no que se referia ao serviço militar para o rei - um mosaico de jurisdições sobreponíveis e frequentemente em conflito, típico do período medieval. É também desta época que datarão as primeiras estruturas defensivas conhecidas, referidas em 1223 numa carta de protecção de Sancho II, das quais infelizmente não restam vestígios: com a evolução da guerra de cerco no século XIII, rapidamente se terão tornado obsoletas.
Precisamente pela necessidade de protecção de uma região tendencialmente despovoada e ainda muito recentemente afectada por hostilidades recorrentes como a guerra civil de 1245-1247, o bispo D. Egas Fafes de Coimbra (1248-1267) decidiu erguer um novo castelo, para o qual obteve a autorização de D. Afonso III em 1258 ou 1266. Ou seja, a fortificação em causa - e ao contrário do velho mito de que só o rei as construía - foi erigida por um senhor em território seu, embora aqui também observemos um desenvolvimento típico do século XIII: a autorização monárquica. Efectivamente, já desde Sancho I os reis portugueses tentavam impor com mais ou menos sucesso o “ius crenelandi”, i.e., o monopólio da construção de estruturas militares, de modo a controlar a senhorialização do território e manter o seu poder militar sobre ele. Apesar de só com D. Dinis este princípio se ter tornado completamente efectivo e incontestável pela força do rei, depois do conflito em 1281 com o seu irmão D. Afonso por causa das muralhas de Castelo de Vide, o bispo de Coimbra parece ter jogado pelo seguro com o seu senhor e protector... especialmente quando já lhe tinham sido destruídos outros castelos “ilegais” em Coja e Avô, em 1254.
Desta fase da estrutura, cuja edificação certamente se prolongou na melhor das hipóteses pelas décadas finais do século XIII e teria possivelmente uma planta quadrada, resta sobretudo a torre de menagem, na face sudoeste. Está colocada num canto do recinto e não no centro, de modo a torná-la solidária na defesa do castelo, num desenvolvimento da defesa activa vulgarizado só mais tarde no período dionisino. Como observou Rita Costa Gomes, esta torre apresenta algumas semelhanças com a torre de menagem do Castelo de Vilar Maior, na mesma região. Também mais ou menos contemporânea, temos ainda a porta Sul, em cotovelo e encimada por matacães.


No contexto do longo processo de definição de fronteiras entre Portugal e Castela, iniciada já por Afonso III no Tratado de Badajoz (1267) e continuada por D. Dinis no famoso Tratado de Alcanizes (1297), Belmonte acabou um pouco mais distanciada da zona de fronteira. Daí resultou um período de decadência para este castelo, por falta de necessidade militar da fortaleza – um aspecto que pessoalmente matizamos aqui um pouco, contudo, pois durante boa parte do século XIV o castelo estaria ainda relativamente actualizado. Mesmo assim, não deixamos de concordar que a fortificação e a vila sofreriam imenso com as famosas crises do século XIV, um pouco como por toda a Beira Interior. Os surtos de peste bubónica, as guerras fernandinas e a crise de 1383-1385 levariam a uma redução considerável da população e a danos ao castelo, o que levou o bispo de Coimbra a obter do rei o estatuto de couto de homiziados para Belmonte em 1387. Por causa deste despovoamento e dos constantes conflitos jurisdicionais com a Sé da Guarda, o bispado de Coimbra optou finalmente por englobar a povoação num escambo de terras com Martim Vasques da Cunha em 1394, desembaraçando-se assim de uma terra pela qual já não havia grande interesse.

Martim Vasques manteria o seu senhorio até 1396, quando se passou com seu irmão para Castela, como resultado de desentendimentos de boa parte da nobreza com João I, e as suas terras acabaram confiscadas pela Coroa. O domínio régio não duraria muito, pois a vila seria concedida ao Infante Henrique e ficaria mais tarde na posse da casa ducal de Beja até 1495, quando o duque Manuel subiu ao trono.
Mais constante em finais da Idade Média seria o domínio senhorial conferido pela alcaidaria do castelo: em 1398, João I nomeou como alcaide Luís Álvares Cabral, com raízes na vila devido à herança do morgadio originalmente instituído pelo bispo D. Gil Cabral da Guarda (natural da localidade). Independentemente da dança das cadeiras entre titulares do senhorio da vila, a família manteria a alcaidaria-mor, convertida em hereditária por graça de Afonso V em 1466. Este cargo dava direito a uma série de poderes e tributos sobre a população local que em 1496 constituíam uma soma apreciável, como se prova pelo inquérito ordenado por Manuel I neste ano, não obstante a escassez demográfica – 88 fogos, com um número de habitantes estimado em c. 360. Precisamente por estas razões, a corte senhorial dos Cabral instalou-se aqui durante a maior parte da segunda metade do século XV, o que leva a que se pense que o famoso navegador Pedro Álvares Cabral tenha nascido no castelo em finais de 1468 ou inícios de 1469, especialmente se se tiver em conta que tanto a mãe – Isabel de Gouveia – como a avó materna do navegador estão documentadas na região em anos próximos da data de nascimento de Pedro Álvares.


Neste contexto, o castelo acabou reparado, recebeu adaptações às armas de fogo (como troneiras) e adquiriu a sua actual planta ovalada. Mas mais importante ainda, Belmonte conheceu nessas obras uma metamorfose assinalável no crepúsculo da Idade Média: foi edificado um imponente Paço do Alcaide. Efectivamente, nos séculos XII-XIV, um castelo não era habitualmente sítio de habitação da nobreza, por não reunir condições de habitação nem ser considerado como tal; o alcaide poderia morar aí com a sua mulher ou barregã em condições frequentemente espartanas, mas um castelo era acima de tudo uma estrutura defensiva e um pólo dinamizador do território. Porém, a partir de meados do século XIV, assistimos a uma residencialização dos castelos portugueses, com o aparecimento de paços dos alcaides ou mesmo régios – como o de Leiria – dentro dos recintos fortificados, chegando às vezes mesmo ao ponto de o castelo e o paço se confundirem como é o caso aqui ou, de forma ainda mais radical, em Ponte de Lima. O Paço do Alcaide de Belmonte teria 2 pisos e uma boa qualidade arquitectónica, mas dele só restam actualmente os muros exteriores e a famosa janela manuelina já do século XVI, pois o edifício acabou destruído num incêndio em 1694.







Por fim, gostaríamos de chamar a atenção para o estado de conservação da fortaleza, alvo de intervenção conjunta do IPPAR (antecessora da Direção-Geral do Património Cultural) e da Câmara Municipal de Belmonte (Belmonte Município) em duas fases há cerca de 30 anos (1992/1993 e 1996/1997). Este tipo de “reabilitação”, com a construção de um anfiteatro e de uma série de estruturas devolutas em cimento, assim como a instalação de pedras de mármore (?) na torre de menagem para exposições
temporárias de pouco interesse para o espaço em causa – por exemplo, cartazes publicitários de cinema -, retirou autenticidade ao castelo ao forçar um pastiche visualmente doloroso para quem paga para lá entrar, em nome do dogma modernista e da marca do arquitecto, contra todas as normas de conservação do Património (mesmo as vigentes na época). E, pelo que percebemos junto dos funcionários, parece que esta observação é uma queixa muito frequente dos visitantes… Para além disso, onde ficaram os resultados das escavações arqueológicas? E porquê o desleixo com a colecção epigráfica e arqueológica na entrada? O resultado é francamente decepcionamente e esperamos que um dia esta tralha seja transferida de um espaço onde não se encaixa e talvez dar mais dignidade aos vestígios epigráficos expostos à toa na entrada do monumento: até lá, a entrada no Castelo de Belmonte continuará a ser uma ratoeira para turistas, sobretudo brasileiros em busca do lugar de nascimento de Pedro Álvares Cabral.





Fontes:
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Mattoso, José (1997). “Dois Séculos de Vicissitudes Políticas”. In Mattoso, José (Coord.), “História de Portugal”, vol. II, “A Monarquia Feudal, 1096-1480”. Editorial Estampa, pág. 117.
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Moreno, Humberto, Baquero (1980). “A Batalha de Alfarrobeira. Antecedentes e Significado Histórico. Vol. II”. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, págs. 748-750.
Reis, António Matos (2017). “Forais e Cartas de Povoamento. 1ª Parte: 1050-1244”. Colecção “Portugaliae Monumenta Historica”, Nova Série, Vol. IX/1, “Leges et Consuetudines”. Academia Portuguesa da História, Lisboa, docs. 82 e 95.
Silva, Joaquim Candeias da (2000). “Belmonte, Cabral e o Descobrimento do Brasil”. Câmara Municipal de Belmonte, págs. 1-48.
Vicente, Maria da Graça Antunes Silvestre (2013). “ ‘Entre Zêzere e Tejo’ Propriedade e Povoamento (séculos XII- XIV)”, vol. I. Dissertação de Doutoramento em História Medieval apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. ~ José
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