A arte ancestral do telhado de laje (xisto) e telhado de Colmo
- InfoBlog de JD
- 10 de jul. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de abr. de 2022
Telhado em Laje:

"Em todas as áreas do País em que um xisto duro pode ser fendido em lâminas pouco espessas, estas foram usadas como material normal de cobertura. Em telhados de pouca, inclinação, essas lascas podem ficar apenas pousadas, sem qualquer prisão à armação, dispostas em escama, as de cima sobrepondo as beiras das de baixo. Mais geralmente porém, elas são seguras por um ou dois pregos que entram em buracos abertos junto da beira superior, cravados nos barrotes da armação; estes buracos são cobertos pela beira da placa seguinte.
Onde o xisto permite a extracção de placas delgadas e de espessura mais certa, como acontece no canto Nordeste de Trás os Montes, em Rio de Onor, Baçal, Aveleda, França, etc., e pela Lomba de Vinhais, as coberturas, ali frequentemente de duas águas pouco inclinadas, mostram se bastante lisas e desempenadas; o beiral é feito de placas escolhidas pelo seu tamanho e maior perfeição, bem cortadas, de modo a permitirem uma beira linear. Na Campeã e em certas outras aldeias do Marão (por exemplo Covelo do Monte), os telhados deste material – que são também por vezes de factura mais cuidada – têm as juntas tomadas a argamassa.
Mais correntemente, contudo, as coberturas são de lascas grosseiras, aplicadas com a forma irregular com que saíram da pedreira, de tamanhos e espessuras muito diversas, desenhando um riscado desordenado e caprichoso. É o que se observa ainda em outras aldeias do Marão (por exemplo Campanhó e Pardelhas), e na área montanhosa que vai de Arouca até à ribeira do Vouga. Nesta última zona, a lousa ora cobre toda a cobertura, ora, como dissemos, por exemplo na aldeia do Merujal, apenas a sua parte inferior, sendo a superior coberta a colmo. Esta modalidade só a encontramos na serra da Freita. Pelo contrário, é extrema mente corrente as placas de xisto constituírem um capeado que faz de beiral, sobre o qual assenta a primeira fiada de colmo. Esse capeado de lousas ora rudes ora bem talhadas, representa nas terras do xisto, o mesmo que o capeado vulgar de granito nas serras do Norte. Quando passou a ser usada a telha caleira, e mais tarde a de tipo Marselha, a beirada de lousa permaneceu, e permanece ainda em inúmeros lugares, por ser mais resistente e económica que um beiral de telha. Em muitos casos, a espessura das paredes das empenas é coberta por um capeado semelhante, cada placa sobrepondo se à beira da placa anterior, permitindo o escoamento das águas da chuva. A essas lascas do capeado dão o nome de algerozes, por toda a mancha xistosa que se estende desde a Trofa até Arouca. Ele vê se ainda na serra da Lousã, Moimenta da Beira, etc."
Trecho de: Construções primitivas em Portugal, de
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Pereira
A extracção das placas de xisto. Na cidade leonesa de San Pedro de Trones, as pedreiras de ardósia, abertas aos elementos, revelam uma intensa atividade de extração dessa matéria-prima. Em 1998, alguns pedreiros veteranos nos mostraram como era esse trabalho tradicional até a introdução das máquinas.
Por Eugenio Monesma :
A abundância de lajes nas zonas montanhosas facilitou aos seus habitantes o aproveitamento das pedreiras existentes nas redondezas das suas aldeias para a construção e restauro dos telhados das suas habitações.
Em 1993, Saturnino Otín restaurou uma cobertura de telha completa em uma casa em Ipiés, Huesca, Espanha.
Por Eugenio Monesma :
Telhado em Colmo:

"Nas áreas nortenhas, as colmaduras foram, em inúmeras partes, o processo geral e até, em muitos casos, único, de cobertura, que não só possuem as características de um elemento qualificadamente primitivo em si mesmo (que, em estreita dependência para com o meio, utiliza os materiais locais, e elabora técnicas elementares para a sua utilização), mas podem mesmo considerar se uma, e a mais importante, sobrevivência dessas remotas formas originárias, que aliás, como vimos, ali subsistem em muitos casos pouco menos do que intactas.
Embora a telha de barro, entre nós e designadamente ali, seja conhecida desde tempos muito recuados – pelo menos desde o final do período castrejo – e o seu uso tenha vindo em aumento ao longo dos séculos, as coberturas de colmo eram sem dúvida as mais frequentes, como formas primárias que vinham de um mundo fechado e pouco menos que autárcico. Próprias assim de uma cultura rural primitiva, elas, hoje, aparecem sobretudo nas zonas arcaizantes da serra, onde essa atmosfera perdura, e naturalmente nas casas dos níveis mais rústicos e pobres – aliás, mesmo aí, presentemente com manifesta tendência a desaparecerem, progressiva mente substituídas pela telha. Outrora, porém, o seu uso era ainda mais geral. Na Idade Média, não só a casa da «gente miúda» nas aldeias e nos recintos acastelados mas mesmo o solar senhorial, teriam cobertura de colmo, caniço ou giesta. Viterbo nota que, no seu tempo, ou melhor, antes da publicação do Elucidário, em 1789, se conservavam, principalmente no Minho, vestígios do antigo costume de serem as casas, «ainda honradas e distintas», cobertas de colmo e giesta, e não telha; e cita o Tombo do Aro de Lamego, de 1346, onde se dispõe que «alguns lugares da Magueja eram obrigados a uns tantos feixes de giestas negrais para se cobrirem as casas que el rei tinha no Castelo daquela cidade. Sobre o colmo ou giesta punham (tal como ainda hoje em alguns casos) uma certa jangada de paus atraves sados, para que os ventos as não deixem expostas à inclemência dos temporais». Segundo este erudito, a essa « jangada de paus» dava se o nome de canga; cangar a casa era colocar os paus; e descangar, tirá-los.
Por outro lado, essas coberturas de colmo eram também, então, cor rentes em certas áreas da Ribeira. Cunha Serra, indicando a expressão casas palhaças, que designava casas feitas ou cobertas de palha, chama a atenção para os topónimos existentes no distrito de Aveiro com base nesse étimo: Palhal e Palhais, Palheiros e Palhota, além de Palhaça mesmo –, indigitando povoações constituídas originariamente por construções deste tipo; e transcreve uma passagem das Inquirições de 1288 1290, onde se regista que, na Lagoa de Esmoriz, se ia colher a carrega, o junco e a madeira, para cobrir as casas.
O abandono progressivo do colmo e a sua substituição pela telha tiveram como razão primordial o perigo de incêndio que ele representava. Além disso, porém, as coberturas de colmo mostram o grande inconveniente de requererem composturas frequentes, seja a substituição de zonas maiores ou mais pequenas apodrecidas pela água que penetrou a espessura do colmaço, seja mesmo o refazer de sectores inteiros que a ventania levantou. E, nesse processo, não conta pouco o sentimento de inferioridade que sentem aqueles que continuam a viver em casas com tais telhados, perante outros vizinhos que já os modernizaram."
Trecho de: Construções primitivas em Portugal, de
Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Pereira
Uma das culturas tradicionais dos vales dos Pirenéus, de onde se aproveita tudo, é o centeio. Entre outros usos, praticamente extintos, destaca-se a construção de telhados.
Em 1997, gravámos nos Pirenéus franceses a construção completa de um telhado com palha de centeio.
Por Eugenio Monesma :
Por Eugenio Monesma :
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